Dicas para diagramar textos justificados

Por Andréia Alves (Designer da Tradstar)
Fonte: Elementos do estilo tipográfico de Robert Bringhurst

A legibilidade de textos digitados não depende apenas da forma ou qualidade das letras, mas também do espaço vazio entre as palavras. Na tipografia o espaço é infinitamente divisível.  Não importa quão cheia ou vazia, a página precisa respirar.

Para obter um bloco de texto homogêneo (e confortável de ler) é preciso levar em consideração dois fatores indispensáveis e interdependentes: o design da fonte e o espaçamento das letras, das palavras e das linhas. Abaixo, vamos explicar brevemente como cada um interfere na composição do texto:

Obviamente, o design da fonte atende a objetivos específicos e permite que se dê expressão ao documento. Sabemos que quanto mais elaborado for o traço da fonte, mais comprometida poderá ser a sua legibilidade em um bloco maior de texto. As fontes com serifa (com base reta nas extremidades das fontes) geralmente são usadas para o corpo do texto, pois oferecem uma linearidade natural, tornando a leitura mais confortável. Já as fontes sem serifa (sem prolongamentos e traços nas hastes) são preferencialmente usadas em títulos, subtítulos, citações ou excertos menores de textos, pois proporcionam mais leveza.

O espacejamento horizontal (entreletra e entrepalavra) é uma medida variável, mensurada em emes (ou quadrantim), equivalente ao tamanho da fonte utilizada. Essa medida varia de acordo com o alinhamento do texto, podendo ser imutável quando desalinhado, ou flexível se o texto for justificado. No texto justificado, por ter um espacejamento flexível, é comum encontrar entrepalavras muito largas que interrompem o fluxo do texto e causem desconforto na leitura. Isso é considerado um erro de diagramação e é facilmente corrigido com a hifenização das palavras, ou ainda, alterando o comprimento da linha. No entanto, devido às formas do alfabeto latino, é praticamente impossível evitar algumas inconsistências no espaçamento entreletra. O kerning (alteração de espaço entre pares específicos de letras) pode otimizar a consistência.

O espacejamento também é essencial para a leitura rápida de cadeias longas, como por exemplo, números seriais, sendo útil também em sequências menores, como numeração (exceto pares de números) e datas.

O espacejamento vertical é medido de diversas formas, por altura da coluna ou página, ou ainda  pela entrelinha (distância da base de uma linha até a outra). Esse espacejamento é responsável pelo respiro do texto, por exemplo, quanto maior o comprimento da linha, maior será necessário o valor de entrelinha. A escolha da tipografia também interfere no valor da entrelinha, pois as fontes sem serifa pedem mais entrelinha que as fontes serifadas.

Títulos, subtítulos, citações em destaque, notas de rodapé, ilustrações, legendas e outras intromissões criam síncopes e variações sobre a base rítmica, por isso a quantidade total de espaço vertical consumida em cada desvio do texto principal deve ser necessariamente  múltiplo comum da entrelinha.

Por fim, vamos listar algumas dicas rápidas para diagramar textos justificados:

  • Em títulos e subtítulos, um espacejamento extra é desejável.
  • Um único espaço é suficiente depois do ponto final, ponto-e-vírgula ou qualquer outra pontuação.
  • Evite hifenizar mais de três linhas consecutivas. Nos finais de linha hifenizados, deixe pelo menos duas letras para trás e leve pelo menos três letras para a próxima linha.
  • Utilize a hifenização de nomes próprios apenas em último caso, a não ser que eles apareçam tanto quanto os outros substantivos comuns.
  • Em textos justificados evite deixar que a última linha de um parágrafo seja o final de uma palavra hifenizada ou qualquer palavra com menos de três letras.
  • Evite utilizar hifens quando o texto é interrompido.
  • Use espaços duros para conectar pequenas expressões numéricas e matemáticas.
  • Evite iniciar duas ou mais linhas consecutivas com a mesma palavra.
  • Jamais inicie uma página pela última linha de um parágrafo com várias linhas.
  • Equilibre páginas opostas movendo linhas individuais.
  • Não recue a primeira linha dos parágrafos iniciais (a função do recuo do parágrafo é apenas marcar uma pausa, separando o parágrafo de seu precedente). A forma mais básica de marcar um parágrafo é o recuo simples: um quadrado branco.
  • Abandone toda e qualquer regra de paginação que não satisfaça as necessidades do texto.